Abriu o museu do "Poeta da Arrábida" Azeitão acolhe espólio de Sebastião da Gama, em espaço com auditório
O Museu-Biblioteca Sebastião da Gama foi inaugurado ao final da tarde, de terça-feira, em Vila Nogueira de Azeitão, pelo presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Mata Cáceres. Localizado na freguesia de São Lourenço, o projecto do museu dedicado à memória do "poeta da Arrábida" é da autoria do arquitecto António Araújo e custou cerca de 70 mil contos. Ocupa uma área de 200 metros quadrados do antigo aquartelamento da delegação de Azeitão dos Bombeiros Sapadores de Setúbal. Subordinado ao lema "Pelo sonho é que vamos", pode ler-se na parede o conhecido poema que começa precisamente com aquela frase "pelo sonho é que vamos/comovidos e mudos/Chegamos? Não chegamos?/Haja ou não haja frutos/pelo sonho é que vamos".
Auditório e biblioteca
No rés-do-chão, na sala destinada ao serviço educativo, encontra-se em exposição o espólio de Sebastião da Gama, constituído por fotografias, objectos pessoais, manuscritos e primeiras edições das suas obras "Diário", "Serra-Mãe", "Campo Aberto" e "Pelo sonho é que vamos", entre outras. No primeiro piso, funciona uma biblioteca e um pequeno auditório. o museu dispõe ainda de um quiosque multimédia, que inclui dados sobre a vida e a obra de Sebastião da Gama. Na inauguração, estiveram presentes muitas figuras de relevo de Setúbal e, sobretudo, antigos alunos do poeta. Na rua, elementos do grupo Gil-Teatro encarregaram-se da animação.
Poema inédito
O historiador Fernando António Baptista Pereira sintetizou, durante a sessão, a vida e o trabalho poético de Sebastião da Gama, a sua passagem por Setúbal, Lisboa, Estremoz e Arrábida, onde escreveu grande parte da sua obra.
Por sua vez, a viúva do poeta, Joana Luisa da Gama, que em 1986 prometeu doar o espólio do marido quando existisse espaço físico para o acolher, leu um poema inédito, alusivo às crianças, já que a inauguração teve lugar precisamente no Dia Mundial da Criança. Mata Cáceres, presidente da Câmara de Setúbal, salientou na sua intervenção que o novo equipamento reforça a oferta do concelho no campo dos museus, juntando-se ao do Trabalho e ao do Convento de Jesus. (...)
Em declarações ao JN, Ana Duarte, responsável pelo Departamento Cultural do município sadino, revelou que o museu funcionará diariamente no horário de expediente e "começará em breve a receber os alunos das escolas do Concelho, a fim de lhes dar conhecimento da figura de Sebastião da Gama". Parte do espólio será anualmente renovado, já que está disponível muito material.
Para mais informações visite: www.azeitao.net/Sebastiao/museu.htm
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domingo, 7 de junho de 2009
Museu Sebastião da Gama
A história da poesia
Poesia arábica em território nacional
Entre os árabes, enquanto estes povoavam o território que mais tarde viria a ser Portugal, encontramos um punhado de poetas de grande valor, o que era constante, aliás, na civilização islâmica da altura, muito dedicada à poesia. Al-Mu'tamid (rei do Taifa de Sevilha), Ibn Bassam (em Santarém, na altura chamada Xantarim), Ibn'Amar e Ibn Harbun (de Silves) são alguns exemplos.
Poesia na idade média cristã
Com a Reconquista Cristã e a fundação da nacionalidade, inicia-se a época da poesia galaico-portuguesa. As cantigas de amigo; as cantigas de amor e as cantigas de escárnio e maldizer, foram compiladas em antologias da época, manuscritas, a que se deu o nome de Cancioneiros. Podemos fazer referência a alguns dos mais importantes:
• Cancioneiro da Ajuda - Compilado em Portugal no final do século XIII ou no princípio do século XIV.
• Cancioneiro da Vaticana - Compilado em Itália no fim do século XV ou no princípio do século XVI.
• Cancioneiro Colocci-Brancutti ou Cancioneiro da Biblioteca Nacional - Compilado em Itália no fim do século XV ou no princípio do século XVI.
Os trovadores e jograis (feminino: jogralesas) cultivaram ainda outros géneros poéticos, como as tenções, as cantigas de seguir, as cantigas de vilão, as pastorelas, os prantos, os descordos, os lais.
Existe uma época da história desta poesia, considerada como uma idade de ouro, que compreende um período afonsino (de 1240 a 1280), com os reinados de Afonso X de Castela (autor das Cantigas de Santa Maria) e de Afonso III de Portugal. Segue-se o eríodo dionisíaco, com o reinado de D. Dinis (filho de Afonso III). O seu filho bastardo, Dom Pedro, Conde de Barcelos (que morre em 1354), autor de algumas cantigas que encerram um período de florescimento poético.
A poesia galaico-portuguesa passa, então, por um período de decadência, desde fins do século XIV e ao longo do século XV. Forma-se uma escola castelhano-portuguesa (escrevendo-se nos dois idiomas emergentes). Será Garcia de Resende a efectuar a compilação desta produção poética no seu Cancioneiro Geral, em 1516.
A par desta poesia lírica, outros jograis divulgavam as gestas, poemas de cariz épico e hagiográfico, muitas vezes utilizadas como fontes de informação para os cronistas da época. Alguns estudiosos desta manifestação cultural, como António José Saraiva, Lindley Cintra e Diego Catalán acreditam que terá existido um poema épico, cantado pelos jograis, onde se narrariam os feitos de D. Afonso Henriques.
Transmitido oralmente, parece ter servido de mote para cronistas portugueses e castelhanos, que a transformaram e prosa (a forma poética tem também a função de tornar mais fácil de memorizar os longos relatos). O Romanceiro português alia o épico ao lírico nos seus romances bastante diversificados.
O alaúde era um instrumento muito usado na época.
Renascimento
Os poetas portugueses representados no Cancioneiro de Garcia de Resende demonstram algum conhecimento de outras poéticas: Dante Alighieri, Petrarca, Juan de Mena, Marquês de Santillana, além de autores do classicismo romano.
Gil Vicente e Francisco de Sá de Miranda marcam, na poesia, o início do Renascimento em Portugal, onde também se destaca António Ferreira.
Luís Vaz de Camões é, contudo, o vulto maior da poesia portuguesa. Os Lusíadas, 1572 é o poema nacional por excelência. Não se deve, porém, esquecer a sua poesia lírica, a todos os níveis incomparável, reunida nas Rimas, postumamente, em 1595.
É com Camões que se faz, também, a nível de estilo e conteúdo, passagem para o Maneirismo, de uma poesia melancólica e de profundo questionamento existencial que já se verifica em Camões (onde a temática do exílio, na sua lírica, e a crítica aos aspectos menos heróicos de Portugal, como o "gosto d'hua austera, apagada e vil tristeza", n'Os Lusíadas, já faz entrever). Diogo Bernardes, Vasco Mouzinho de Quevedo, Baltasar Estaço, D. Manuel de Portugal, Sá de Miranda e Francisco Rodrigues Lobo são alguns dos nomes mais importantes deste período que irá desembocar no
Barroco
Luis de Góngora, na Espanha, a par com Francisco de Quevedo, é o modelo a imitar, no que diz respeito à poesia Barroca. Os poetas portugueses da altura, como Jerónimo Baía, Barbosa Bacelar e D. Tomás de Noronha (entre muitos anónimos), sem o mesmo brilho dos mestres espanhóis, glosam, então, num virtuosismo formal intrincado, os temas da Morte, e da inconstância da Sorte e da Fortuna, transmitindo um sentimento que marcava, também, a religião na Península Ibérica, na altura.
Barroco e poesia arcaica
Como reacção ao Barroco, seguindo o lema Inutilia truncat (cortar o inútil) o Neoclassicismo, inspirado nos modelos gregos e latinos (e no próprio Renascimento), inicia-se com Pedro António Correia Garção (pseudónimo arcádio: Córidon Erimanteu), na segunda metade do século XVII. A Arcádia Lusitana vai ser o movimento poético mais importante desta época até à primeira metade do século XIX, reunindo os nomes de Francisco Manuel do Nascimento (mais conhecido pelo pseudónimo arcádio Filinto Elísio), Manuel Maria Barbosa Du Bocage, Francisco Joaquim Bingre, Marquesa de Alorna, José Anastácio da Cunha, José Agostinho de Macedo, Nicolau Tolentino de Almeida, António Dinis da Cruz e Silva, entre outros.
O século do Romantismo
O século XIX trouxe consigo alguns dos maiores vultos da poesia portuguesa. Ainda que não tivesse sido pródigo na quantidade, este foi o século de Almeida Garrett, Antero de Quental, Gomes Leal, António Nobre, João de Deus, Cesário Verde, Guerra Junqueiro...
Século XX
O século XX, no entanto, é, segundo as palavras de um dos grandes poetas contemporâneos (Eugénio de Andrade), o século de ouro da poesia portuguesa. A quantidade e qualidade são, realmente, assombrosas. Destacam-se Florbela Espanca, Teixeira de Pascoais, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Camilo Pessanha, António Botto, Afonso Duarte, Irene Lisboa, Edmundo de Bettencourt, Vitorino Nemésio, José Régio, Saúl Dias, António Gedeão, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Natália Correia, Mário Cesariny, Alexandre O'Neill, António Ramos Rosa, Albano Martins, David Mourão-Ferreira, António Manuel Couto Viana, Alberto de Lacerda, António Maria Lisboa, Fernando Echevarria, Rui Knopfli, Ruy Belo, João Pedro Grabato Dias, António Osório, Liberto Cruz, José Carlos Ary dos Santos, Manuel Alegre, Fernando Assis Pacheco, Luiza Neto Jorge, Vasco Graça Moura, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel de Magalhães, António Franco Alexandre, Carlos Eurico da Costa, Nuno Júdice, Al Berto, Luís Filipe Castro Mendes, Adília Lopes, Ana Hatherly, Herberto Helder, Luís Miguel Nava, António Franco Alexandre, Daniel Faria , Casimiro de Brito, Gastão Cruz, Pedro Sena-Lino, José Carlos González.
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Poesia
A poesia ou género lírico é uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos. Poesia, segundo o modo de falar comum, quer dizer duas coisas: a arte, que a ensina, e a obra feita com a arte; a arte é a poesia, a obra poema, o poeta, o artífice. O sentido da mensagem poética também pode ser importante (principalmente se o poema for em louvor de algo ou alguém, ou o contrário: também existe poesia satírica), ainda que seja a forma estética a definir um texto como poético. A poesia compreende aspectos metafísicos (no sentido de sua imaterialidade) e da possibilidade de esses elementos transcenderem ao mundo fáctico. Esse é o terreno que compete verdadeiramente ao poeta.
Num contexto mais alargado, a poesia aparece também identificada com a própria arte, o que tem razão de ser já que qualquer arte é, também, uma forma de linguagem (ainda que, não necessariamente, verbal).
A poesia, no seu sentido mais restrito, parte da linguagem verbal e, através de uma atitude criativa, transfigura-a da sua forma mais corrente e usual (a prosa), ao usar determinados recursos formais. Em termos gerais, a poesia é predominantemente oral - mesmo quando aparece escrita, a oralidade aparece sempre como referência quase obrigatória, aproximando muitas vezes esta arte da música.
Géneros poéticos
Os géneros de poesia permitem uma classificação dos poemas conforme suas características. Por exemplo, o poema épico é, geralmente, narrativo, de longa extensão, aborda temas como a guerra ou outras situações extremas. Dentro do género épico, destaca-se a epopeia. Já o poema lírico pode ser muito curto, podendo querer apenas retratar um momento, um flash da vida, um instante emocional. Poesia é a expressão um sentimento, como por exemplo o amor. Vários poemas falam de amor. O poema é o seu sentimento expressado em belas palavras, palavras que tocam a alma.
Uma definição sucinta de poesia pode ser: a arte de exprimir sentimentos por meio da palavra ritmada. Essa definição torna-se insuficiente quando se volta o olhar para a poesia social, a política ou a metapoesia. Com o advento da poesia concreta, o próprio ritmo da palavra foi anulado como definição de poesia, valorizando mais o sentido. O poema passa a ter função de exprimir sucintamente e entre linhas o pensamento do “eu” lírico. A narrativa também pode fazer isso, mas a maioria dos poemas, com excepção dos épicos, não se baseia num enredo. A mensagem do autor é muito mais importante do que a compreensão de algum facto.
Licença poética
A poesia pode fazer uso da chamada licença poética, que é a permissão para extrapolar o uso da norma culta da língua, tomando a liberdade necessária para recorrer a recursos como o uso de palavras de “baixo-calão”, desvios da norma ortográfica que se aproximam mais da linguagem falada ou a utilização de figuras de estilo como a hipérbole ou outras que assumem o carácter "fingidor" da poesia, de acordo com a conhecida fórmula de Fernando Pessoa ("O poeta é um fingidor").
A matéria-prima do poeta é a palavra e, assim como o escultor extrai a forma de um bloco, o escritor tem toda a liberdade para manipular as palavras, mesmo que isso implique romper com as normas tradicionais da gramática. Limitar a poética às tradições de uma língua é não reconhecer, também, a volatilidade das falas.
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MANUEL da FONSECA (1911-1993)
Um dos principais autores do Neo – Realismo português. Em Lisboa se radicara desde a época dos estudos secundários, depois dos quais frequentou, por algum tempo, a Escola de Belas – Artes.
Destacou-se como poeta, contista e romancista. Publicou Rosa dos Ventos ( poesia, 1940), Planície ( poesia, 1941, na colecção Novo Cancioneiro, de Coimbra), Aldeia Nova (contos, 1942), Cerro – Maior (romance, 1943), O Fogo e as Cinzas (contos, 1951), Seara de Vento (romance, 1958), Poemas Completos (1958), Um Anjo no Trapézio (contos,1968), Templo de Solidão (contos, 1973), além de um volume de crónicas ( Crónicas Algarvias, 1986) e de uma Antologia de Fialho d´Almeida (1984). Reelaborou alguns de seus textos mais de uma vez, dando-lhes forma definitiva para a Obra Completa.
Exceptuando-se os dois últimos livros e contos, de ambiência lisboeta, trata-se de uma obra profundamente marcada pelo espaço físico e humano do Alentejo.
Em íntima relação com sua produção literária, Manuel da Fonseca desenvolveu uma intensa militância social, política e cultural, tendo chegado a ser preso em 1965, por ter integrado o júri que premiou Luanda, de José Luandino Vieira.
Noite de Verão
Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
... aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo
vem à varanda ver a Lua,
Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa.
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sábado, 6 de junho de 2009
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO (1890-1916)
Escritor português, natural de Lisboa. Matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra em 1911, mas não chegou sequer a concluir o ano. Em 1912, publicou duas obras: a peça de teatro Amizade (de parceria com Tomás Cabreira Júnior) e as novelas reunidas sob o título Principio. Nesse mesmo ano, seguiu para Paris, onde deveria estudar direito, mas dedicou-se sobretudo à vida de boérnia dos cafés e salas de espectáculo da capital francesa. No ano seguinte, durante urna passagem por Lisboa, publicou A Confissão de Lúcio (prosa narrativa) e, em 1914, Dispersão (poemas). Nesse mesmo ano regressou a Paris. Em 1915, era um dos membros do grupo de Orpheu, revista em que colaborou. A crise interior que o afectava levou-o, em 1916, ao suicídio.
Como escritor, Mário de Sá-Carneiro demonstra, na fase inicial da sua obra, influências do decadentismo e até do saudosismo, numa estética do vago, do complexo e do metafísico; aderiu posteriormente às correntes de vanguarda do paulismo, do sensacionismo e do interseccionismo, apresentadas por Fernando Pessoa, de quem era amigo. O delírio e a confusão dos sentidos, marcas da sua personalidade, sensível ao ponto da alucinação, com reflexos numa imagística exuberante, definem então a sua egolatria, uma procura de exprimir o inconsciente e a dispersão do eu no mundo. Este narcisismo, frustrada a satisfação das suas carências, levou-o a um sentimento de abandono e a uma poesia auto-sarcástica, revendo-se o poeta na imagem de um menino inútil e desajeitado. A sua crise de personalidade, que se traduziu no frenesim da experiência sensorial e no desejo do extravagante, foi a da inadequação e da solidão, da incapacidade de viver e de sentir o que desejava, levando a uma tentativa de dissolução do ser consumada na morte.
Para além das obras já referidas, foi autor de Céu em Fogo (1915) e do volume póstumo Indícios de Ouro (1937). As suas Cartas a Fernando Pessoa foram reunidas em volume em 1958 e 1959.
A um morto nada se recusa, Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
Eu quero por força ir de burro.
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RUI KNOPFLY (1932-1999)
Poeta de origem moçambicana, viveu em Moçambique até 1975. Em Londres, desempenhou as funções de conselheiro de imprensa na Embaixada de Portugal. Em Moçambique participou activamente na vida cultural, quer como organizador e animador de suplementos literários da imprensa local, quer como crítico literário ou cinematográfico, tendo, por outro lado, marcado, com as quatro colectâneas poéticas que publicou entre 1959 e 1972, os caminhos da poesia moçambicana. A sua obra foi, nos últimos anos, um importante ponto de referência para as novas gerações no seu espaço de origem. (…)
(…) O seu, é no espaço lusófono, um dos casos mais nítidos de binacionalidade literária, pois há que considerá-lo tanto no âmbito da literatura moçambicana como no da literatura portuguesa. Knopfli é, de resto, desde o princípio, um ser culturalmente dividido entre as suas inegáveis raízes culturais europeias e o irrecusável apelo de uma África que não é menos sua e que, afinal, traz bem fundo “no sangue”. (…)
(…) A poesia de Knopfli, ao mesmo tempo que se insere na tradição lírica portuguesa moderna, abre-se, em fidelidade a uma forte aspiração cosmopolita, aos estímulos de outras tradições, particularmente aos da poesia de língua inglesa, sendo ainda de realçar que os interesses culturais que ela reflecte se ampliam ao cinema e à música, aqui com relevo para o jazz. (…)
O Livro Fechado
Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,
mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,
em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.
Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio
onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.
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REINALDO Edgar de Azevedo FERREIRA (1922-1959)
Era filho do jornalista Reinaldo Ferreira, o célebre “Repórter X”. Foi para Moçambique (para a cidade, então de Lourenço Marques, hoje Maputo), em fins de 1941, onde completou o curso secundário (7º ano dos liceus) e onde se conservou, salvo poucas vindas a Portugal, até Junho de 1959, altura do seu falecimento.Alguns dos seus amigos e admiradores resolveram reunir e fazer publicar, na Imprensa Nacional de Moçambique, em 1960, o melhor dos seus versos, fazendo-os acompanhar de uma “Introdução” e “Notas Explicativas”. Poemas, assim ficou sendo chamado o livro do autor: “(…) obra inteligente e procurada, talvez sempre provisoriamente acabada, aguardando uma perfeição maior” -, diz-se, dela, nessa “Introdução”
…Em 1966, a Livraria Portugal, de Lisboa, voltou a editar essa obra, com um prefácio de José Régio que refere:” Ninguém ousaria dar outro título a essa reunião de poesias pertencentes a livros diferentes e inacabados, para os quais já o poeta sonhara títulos bastante pessoais. Sem dúvida, pelo menos para quem entenda que toda a verdadeira poesia implica profundas e originais vivências humanas, constituíram os Poemas de Reinaldo Ferreira inesperada revelação de um grande poeta português (…) uma obra que, mesmo chegando até nós fragmentada, pela sua densidade substancial e a sua beleza formal já entrou como peça de rara qualidade no tesoiro da nossa poesia.”
A TUA MÃO É QUE DESPERTA ABRIL
A tua mão é que desperta Abril
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil
É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.
Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!
Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!
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